Um começo que preocupa mais pelo como do que pelo resultado
O início da temporada 2026 do Grêmio está longe de ser animador. Em seis partidas disputadas até aqui, o clube acumulou três derrotas — número que, por si só, já exige atenção. Mas o que realmente preocupa não é apenas o placar final, e sim a forma como essas derrotas aconteceram.
Não se trata de tropeços ocasionais ou jogos decididos no detalhe. O padrão que começa a se repetir aponta para problemas mais profundos, especialmente quando o nível do adversário sobe. Contra equipes sem divisão nacional ou de menor expressão, o Grêmio venceu. Contra times com estrutura de Série A ou Série C organizada, perdeu — e perdeu mal.
Essa diferença de desempenho escancara uma realidade incômoda: o Grêmio ainda não consegue competir em alto nível.
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O problema não é janeiro — é o comportamento após o intervalo
É comum relativizar resultados no início da temporada com o argumento do calendário, da pré-temporada curta ou da adaptação física. Mas esse discurso perde força quando o mesmo contexto se aplica aos adversários.
Fluminense, por exemplo, também está em janeiro. Ainda assim, venceu um clássico regional no fim de semana e iniciou o Campeonato Brasileiro superando o Grêmio com autoridade tática. O contraste ficou evidente principalmente após o intervalo.
Contra Internacional e Fluminense, o roteiro se repetiu:
Primeiro tempo competitivo ou aceitável
Segundo tempo claramente inferior
Time desorganizado, lento nas reações e vulnerável defensivamente
Quando um time volta pior do vestiário de forma recorrente, o alerta deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural. O intervalo deveria corrigir problemas. No Grêmio, tem ampliado falhas.
Fragilidade defensiva e um velho fantasma: a segunda bola
Outro ponto que chama atenção é a reincidência de erros defensivos em jogadas já conhecidas. Escanteios, rebotes e bolas afastadas de forma incompleta têm sido um tormento constante.
Contra o São José, o gol saiu em uma segunda bola sem reação.
No Gre-Nal, o Internacional dominou os rebotes na entrada da área.
Contra o Fluminense, nem foi preciso rebote: um cruzamento direto encontrou um jogador completamente livre para finalizar.
Esses lances revelam falha coletiva de posicionamento, falta de coordenação e, principalmente, ausência de imposição defensiva. Não é um erro individual isolado — é um comportamento que se repete.
Meio-campo desconectado e pouca proteção à zaga
A expectativa de que mudanças no meio-campo resolveriam os problemas defensivos não se confirmou. A retirada de um volante mais fixo não trouxe maior equilíbrio. Pelo contrário: o setor segue exposto.
Falta compactação, sobra espaço entre linhas e a zaga fica constantemente vulnerável. A equipe não consegue controlar o ritmo do jogo nem impor presença territorial. Em nenhum momento das partidas contra adversários fortes o Grêmio foi senhor das ações.
Sem domínio, o time passa longos períodos reagindo, correndo atrás da bola e dependendo de ações individuais.
Análise das individualidades: poucos destaques, muitas interrogações
Alguns desempenhos individuais ajudam a explicar o cenário:
Laterais: desempenho abaixo do esperado, com dificuldades defensivas e pouca contribuição ofensiva.
Zaga: esforço visível, mas saída de bola previsível e excesso de recuos, o que trava a progressão do jogo.
Meio-campo: falta de aproximação, pouca leitura coletiva e jogadores isolados entre adversários.
Ataque: o centroavante mostrou eficiência quando acionado, mas recebe poucas bolas em condição clara.
Um ponto simbólico é a solidão dos jogadores mais criativos. Quando alguém tenta algo diferente, não encontra apoio próximo. O time joga espaçado, fragmentado, sem sincronia.
Luis Castro: boas ideias, mas o tempo é um adversário
Não há dúvida sobre a qualidade de Luiz Castro como treinador. Seu histórico comprova capacidade de organização, leitura de jogo e construção de modelos competitivos. O problema é o contexto.
No Grêmio, o tempo é curto. A pressão é maior. Não há margem para um processo que leve um ano até engrenar. O clube não vive um ambiente de reconstrução tranquila — vive cobrança permanente.
Isso não significa pedir mudanças drásticas ou decisões precipitadas. Mas significa reconhecer que ajustes precisam acontecer rápido, tanto em ideias quanto em peças.
Elenco curto, lacunas claras e reforços urgentes
O início da temporada também escancara carências evidentes:
Falta um camisa 10 capaz de organizar o jogo
Falta um volante de proteção confiável
A lateral direita é uma urgência
O elenco carece de jogadores que deem consistência ao sistema, não apenas intensidade
Sem essas correções, o risco é transformar um início instável em uma crise prolongada.
Conclusão: o torcedor não cobra perfeição, cobra evolução
O torcedor do Grêmio não exige títulos em janeiro. O que se espera é sinal de caminho, identidade em construção, organização mínima e evolução visível. Até aqui, isso não apareceu.
As derrotas não são o maior problema. O problema é normalizá-las quando vêm acompanhadas de desorganização, falta de controle e repetição de erros.
O começo de 2026 está longe de ser promissor. Ainda há tempo para ajustes, mas o relógio já está correndo — e o Grêmio precisa reagir rápido para que o ano não escorra pelos mesmos erros do início.