Treino é jogo e jogo é guerra – Uma visão do futebol baseada na história.
Publicado em 01/ago/2009 por Charles Hansen.
Nelson Ramão – colaborador do blog – insatisfeito com a performance e apatia do Grêmio no último jogo encaminhou um texto que trata da sua interpretação sobre a razão de ser do futebol: por que ele nos seduz e como deve ser encarado. O Grêmio precisa deixar os floreios de lado e voltar a ser combativo e brioso.

Foto: Gustavo Silent
Tudo começou com uma faixa estendida no Estádio Olímpico lá por 2007 que dizia: “TREINO É JOGO E JOGO É GUERRA”. A dita faixa foi veementemente contestada por um cronista gaúcho que a interpretou como “incitação à violência”. Grande equívoco! O dito cronista ficou por semanas batendo na mesma tecla, incomodado que estava. Para mim, o que conseguiu fazer, foi assinar um atestado de profunda ignorância sobre o que seja o futebol. Então vejamos…
O futebol evoluiu muito. Longe vai o tempo em que o esquema tático, pasmem, era o 2-3-5 (dois zagueiros, três meias e cinco atacantes). Mas, apesar da aparência digamos “festiva”, era extremamente ofensivo, temos que convir. Essa ofensividade extremada, quase absurda, no entanto, tem lá suas razões e estas residem na natureza dos inventores do futebol moderno. Não que os ingleses sejam um povo belicoso, mas também não levam ninguém “pra compadre”. Tanto é verdade que lá, na metade do século XIX, a Inglaterra era uma nação colonialista e tinha a maior Marinha de Guerra do mundo (e isso significava ocupar a posição de maior potência militar). Associado a esse domínio dos sete mares, foi o berço da Revolução Industrial, o que tornou o Império Britânico uma potência econômica, também. O surgimento do futebol na Inglaterra está intimamente associado a todos esses fatores e veio como alternativa de lazer para o proletariado. Um lazer popular, barato, eficiente e competitivo como era e ainda é o espírito inglês. Assim como o xadrez, o futebol nasceu como jogo de estratégia e, por incrível que pareça, essa essência belicosa acompanha a prática futebolística até os dias de hoje.
Quem não lembra que há alguns anos o termo “esquadrão” era sinônimo de time. Esquadrão, no entanto, é uma subunidade de um regimento de cavalaria. Ambos comandados por um “capitão”. Também se usou como sinônimo de time (de team na língua inglesa) o termo “esquadra”. Aí, também, combina perfeitamente o termo “capitão” e, talvez, até seja a interpretação mais adequada, já que a Inglaterra era uma potência marítima. No entanto, muito longe do flagelo que é a guerra, o futebol é, tão somente, um jogo de estratégia que simula o conflito. Daí a justificativa para as expressões “embate” e “refrega”, tão comumente utilizadas como sinônimo de jogo. No futebol, o objetivo é colocar a bola no gol adversário, como todos nós sabemos desde sempre. Assim como o objetivo militar era conquistar a “cidadela” do inimigo. E quantas vezes ouvimos velhos narradores referirem-se às goleiras como “cidadelas” (ex: Haroldo Souza – http://www.youtube.com/watch?v=XdNrgPCMsqA) …
Aquele a quem chamamos hoje de goleiro era, originalmente, o goalkeeper (detentor do gol ou defensor do gol). Porém, na Inglaterra medieval, os defensores das cidadelas eram os arqueiros (archer – arch = braço) que, assim como os goleiros, utilizavam mãos e braços para lançar suas flechas. Estas, curiosamente, descreviam um arco até encontrar seus alvos, assim como a bola reposta em jogo. Enfim, o arqueiro era o último defensor das cidadelas e lançava suas flechas do alto das muralhas porque era praticamente vulnerável no combate a curta distância. A linha de defesa, logo à frente dos arqueiros, tinha por finalidade defendê-los e, comumente, estavam armados de lanças curtas ou “azagaias” para mais fácil manuseio no combate a curta distância. É de “azagaia” que deriva o termo zagueiro.
Geralmente eram soldados robustos, assim como o são os zagueiros, originalmente chamados de “bachs” (significando retaguarda ou a defesa da retaguarda). Por isso chamamos a área de trabalho dos zagueiros de defesa. Aqueles a quem acostumamos chamar de laterais e na linguagem atual do futebol são os alas, representam, além da defesa lateral, a possibilidade de ataque pelos flancos, estratégia muito usada na cavalaria para atingir mais duramente o inimigo, já que a principal defesa está sempre postada na frente do objetivo e não nos lados.
Curiosamente, até hoje, o ataque pelos flancos continua sendo uma arma mortal para qualquer time e isso vem desde o tempo em que se usavam ponteiros. Os meias (winger) são os “articuladores e municiadores” do “ataque”. Funcionam como uma linha de “suprimento” para os “atacantes” (forward). E estes, por fim, funcionam como a “infantaria”, causando baixas ao inimigo e, no futebol, assinalando gols no adversário. Por fim, a figura do técnico, que surgiu no nosso futebol somente na década de 1930, mais ou menos, é o grande estrategista. Como um general, fica observando o “campo de batalha” (ground), sempre à margem do mesmo, sem interferir fisicamente sobre as ações levadas a termo pelo esquadrão sob seu comando. Faz do “capitão” do time, seu representante no “embate”. Bem, nem vou fazer menção ao uso de “uniformes” para distiguir um time de outro (ou um exército de outro) e, muito menos, das antigas “botinas”, hoje substituídas pelas chuteiras…
De qualquer modo, o futebol é apenas uma simulação de uma batalha. Esta estreita relação de similaridade fica mais evidente quando comentaristas esportivos, diante de uma derrota de um time em uma competição, utilizam-se do chavão: “Perdeu a batalha, mas não perdeu a guerra”, no sentido de que no contexto amplo do campeonato, outros confrontos virão e o “revés” momentâneo poderá ser compensado com “vitórias” futuras.
Para nós, gaúchos, o esporte bretão caiu nas graças como uma luva. Nosso histórico espírito guerreiro, para defender nossas fronteiras, nos fez de natureza beligerante. Assim o futebol tornou-se uma paixão. No entanto, isso não significa violência, é apenas uma forma de extravasar nossos mais profundos sentimentos de luta de uma forma civilizada. Tudo muito diferente da violência gratuita que vez por outra se manifesta em confrontos entre torcidas. Algo que, aliás, tem mesmo que acabar.
“TREINO É JOGO E JOGO É GUERRA”, sim! Ou alguém ainda duvida disso?







Leonardo Vieira
01. ago, 2009
Isso tem muito a ver com o estilo Autuori… pelo menos é o que me parece… ele quer muito mais jogo do que marcação… e a preocupação com os cartões acabou agravando ainda mais essa questão das faltas…
O Grêmio não tem jogado mal nos últimos jogos… podemos analisar um a um… teve penalti no final, expulsões… desses todos que o Grêmio perdeu fora apenas 1 foi por falta de futebol, contra o Avaí… agora contra o São Paulo, o time começou melhor, mais uma vez faltou finalização de qualidade… e jogando contra o São Paulo no Morumbi… vão ser poucos que vão ganhar deles lá… Aguardaremos o próximo jogo fora com muita ansiedade, pois a hora de vencer fora de casa está chegando!!
Juanderamos
01. ago, 2009
Falo tudo, nem precisaria comentar.
Gustavo Silent
01. ago, 2009
Charles, esta fotografia é minha, nao me importo em ceder os direitos mas coloquem os creditos ali. Obrigado.
Original: http://www.flickr.com/photos/silentimortal/247344478
Leonardo Fleck Reply:
agosto 1st, 2009 at 16:58
Devidamente creditado, Gustavo. Abraço.
Charles Hansen Reply:
agosto 2nd, 2009 at 11:33
Gustavo. Tudo bem? Cara, acabei pegando essa foto no site da Geral do Gremio. Se soubesse quer era tua já tinha creditado.Mas o Leo já retificou. Muito obrigado valeho
viniciusjc
01. ago, 2009
Vendo os melhores do jogo contra os bambis, foi difícil conter a raiva e a indignação. Havia somente escutado pelo rádio, e não imaginava que ficaria ainda mais indignado vendo as imagens.
Não foi uma simples coincidência a ausência de faltas. Dá pra ver nos gols a marcação tricolor apenas CERCANDO o adversário. Olha, fiquei impressionado. Num extremo conspiratório, daria para usar o vídeo como prova de que o time do Grêmio estava vendido, pois apenas deixou o são paulo jogar.
Essa palhaçada irritou e decepcionou muito mais que qualquer outro jogo perdido fora de casa.
Não costumo ser alarmista, mas fiquei preocupado.
Rodrigo Lorenzi
02. ago, 2009
Ninguem aqui defende a violencia, tenho certeza disso.
Queremos virilidade, pegada, atitude e vontade de vencer que é nossa maior virtude ou era.
Leonardo nao concordo que o Grêmio esteja jogando bem. Viste Grêmio versus Coritiba. Contra o Sao Paulo eu tive até vergonha. Assistia com o meu filho de 8 anos e cara que raiva, dava vontade de entrar em campo pra marcar eu mesmo os caras. Aquilo nao era o Grêmio que eu assistia com o meu pai. Podiamos perder, mas tendo atitude sempre.
Dale, Dale, Dale Grêmio. Eu torco por isso.
Társis Salvatore
02. ago, 2009
Texto sensacional, perfeito.
E como diria Bill Shankly “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso…”
Abs!
T§