Um desafio centenário
Publicado em 18/jul/2009 por Charles Hansen.
Tags: 100 anos do primeiro grenal, grenal
Texto escrito e imagem criada por NELSON LUIZ RAMÃO. Amigo, gremista fervoroso, leitor deste blog. Baita homenagem aos 100 anos do primeiro Grenal. Muito obrigado Nelson, nós do Grêmio Copero ficamos envaidecidos.
Um Desafio Centenário
Fiquei sabendo do desafio meio que por acaso. Como de hábito, no horário combinado, entrei na alfaiataria do Seu Augusto, meu freguês de caderninho, para engraxar-lhe os sapatos. Naquele dia ele estava um tanto contrariado e resmungava coisas do tipo: “O que esses camaradas estão pensando?” “Um bando de moleques que não tem respeito, mesmo…” Não me sofri e perguntei o que estava acontecendo e ele me contou de uns forasteiros que “apareceram do nada” para desafiar o Grêmio… Quando terminei, seus sapatos brilhavam e o meu espírito também. Já sabia o que faria naquele 18 de julho de 1909…
Cheguei à Baixada cedo. Assim, enquanto todos esperavam pelo início do prélio, aproveitei para faturar algum, engraxando os sapatos dos cavalheiros que costumavam freqüentar o estádio em dia de jogo. Era unir o útil ao agradável. Naquela época não se cobrava ingresso para assistir aos matchs do Grêmio e, por uma sugestão do meu cliente e amigo, o major Augusto Kock, eu transitava livremente e acabava assistindo ao jogo do lado do caramanchão, empoleirado na minha caixa de engraxate para não perder nenhum lance.
Não tinha como esquecer do compromisso. Sempre que o Grêmio entrava em campo, eu estava lá. Mas aquele jogo, em especial, foi amplamente alardeado na cidade. O programa havia sido afixado nos postes para que ninguém perdesse o espetáculo. Não fiquei surpreso com o público, tão numeroso quanto nos jogos pela Wanderpreis, contra o FussBall, nosso tradicional adversário. Fiz dinheiro naquele dia…
Quando a partida estava por começar, encaminhei-me para o lado do caramanchão. Mas tinha muita gente… Mesmo equilibrando-me na ponta dos pés sobre a minha caixa de engraxate, não conseguia ver o ground… Foi com surpresa que ouvi o Seu Augusto me chamar: “Ô guri, sobe aqui e assiste comigo!” Era um convite que nunca havia recebido… E fiquei ali, exprimido entre o major e outras pessoas da sociedade de Porto Alegre, seus convidados. Lembro-me, também, que foi nessa ocasião que eu conheci o Dr. José Montaury, o intendente municipal. Já o conhecia de vista e, depois desse dia, ele se tornaria meu cliente, também…
Eram mais ou menos 3 horas da tarde quando os teams adentraram ao ground da baixada antecedidos pela banda da Brigada Militar. Uma ansiedade incomum se apoderava de mim ao ver aquele uniforme, metade anil, metade negro, que tão distintamente trajava meus ídolos de infância. Os players desafiantes vestiam camisas listradas de vermelho e branco. A partida seria arbitrada pelo Sr. Waldemar Bromberg, auxiliado pelos senhores Castro Silva e Sommes (juízes de linha) que se posicionaram às margens do ground e pelos senhores Theobaldo Foernges e Theodoro Bugs (juízes de gol) que se posicionaram junto às traves das goleiras, já que naquela época não se usava redes.
A saída de bola foi dada pelo Grêmio que, alguns minutos depois, já percebia o quanto o adversário estava despreparado para o enfrentamento… Assim, logo aos 10 minutos, o center-forward gremista Booth fazia “as honras da casa” e marcava o primeiro tento enquanto o goalkeeper do desafiante, Poppe II, parecia antever o tamanho da besteira que haviam feito… Mas agora era tarde demais… Aos 20 ele tomava o segundo gol. Ainda tomaria um terceiro que seria anulado por off-side (impedimento). O primeiro tempo terminou com um placar normal: 2 x 0.
Dez minutos depois, o match era retomado. Novamente aos 10 minutos de jogo vinha o terceiro gol gremista e os desafiantes (nada humildes, já se intitulavam como “Internacional”, enquanto que o Grêmio era, apenas, o Porto-Alegrense) começavam a “tropeçar na gravata”. Extenuados, tomaram mais quatro gols nos 20 minutos seguintes. Ainda lembro-me dos backs gremistas Deppermann e Becker conversando com os torcedores à beira do ground com o jogo andando, tamanha a inoperância do ataque adversário. Foi trágico e hilário, ao mesmo tempo… O jogo acabou com o absurdo placar de 10 x 0 e a torcida gremista invadindo o gramado da Baixada. O goalkeeper gremista Callfelz, sequer havia sujado o uniforme…
Findo o match, torcedores, dirigentes e convidados foram para a sede dos Atiradores Alemães, comemorar. Eu ainda ganhei algum dinheiro limpando os calçados, sujos pela lama de mais um típico inverno gaúcho. Depois, voltei para casa com uma alegria incomum. Lembro de ter descolado de um poste o programa daquele match que guardei como relíquia durante anos, até deixá-lo como legado a meu filho. Afinal, para mim, o Grêmio era o melhor time do mundo… Afinal, até então, nunca havia presenciado uma match com placar tão elástico… Meu filho passou a relíquia para um de meus netos que 75 anos depois, no dia 11 de dezembro de 1983, no meio da madrugada, veio me abraçar trazendo o velho proclamo nas mãos e dizendo: “Vô! Eu sei que tu já sabias há muito tempo, mas agora ninguém mais duvida: o Grêmio é o melhor do mundo!” Ao meu filho, tudo o que pude dar foi educação e a herança de ser gremista. Valores que passou aos meus netos como se fosse tradição de família… E agora, que o match entre gremistas e colorados, torna-se um clássico centenário, vou assisti-lo de camarote. Quem me convidou? Um amigo que fiz lá na década de 1920: o Lara. É… Vai ser daqui, sobre a marquise do Olímpico, que assistiremos a mais um match que o Ivo dos Santos Martins batizou de Gre-nal. Aliás, parece que é ele quem vai cobrir o centenário do clássico para o pessoal do “andar de cima”… É… Não assisti ao nascimento do colorado, mas estava lá no batizado e posso afirmar que foi uma festa e tanto…








Charles Hansen
18. jul, 2009
Nelson. Sensacional. Fiquei totalmente envolvido com a atmosfera. Fantastico. Já nos conhecemos pessoalmente e sabes do apreço que tenho pelo NOBRE AMIGO. Nos dias de hoje não é facil adjetivar pessoas com NOBREZA. Eternamente grato irmão gremista.
Aline Cardias
18. jul, 2009
Nossa Nelson, incrivelmente emocionante.
Não acredito que outras palavras poderiam expressar melhor tudo que envolve a data de hoje.
Não é à toa seres um baita gremista e uma baita pessoa.
Amanhã é aniversário do meu pai, aquele que me passou a herança de “ser gremista”. E por ironia, coincidência ou seja lá o que for, ao invés de comemorar com ele a sua data, estarei ao lado do Grêmio, comemorando mais um Grenal…assim como ele me ensinou…rsrsrs.
Parabéns e uma grande honra contarmos com tuas palavras neste espaço.
Fiorella
19. jul, 2009
Pôxa, parabéns mesmo!
Terminei de ler com lágrimas escorrendo pelo rosto…
Que possamos todos comemorar hoje, seja da Geral, das cadeiras ou do “camarote principal” lá de cima, mais um feito tricolor!