Meu Grenal inesquecível

Publicado em 07/fev/2009 por .
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grenal Meu Grenal inesquecível

Lembro com certo saudosismo daquela tarde de sábado, 26 de outubro de 2002. Naquele dia, pela primeira vez, ao vivo e a cores, acompanhei um Grenal. Foi uma experiência tão louca quanto especial. Não é por acaso que dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Mesmo que já tivesse decidido, no dia anterior, que seria apenas mais um clássico do radinho, minha vontade de assistir a um Grenal foi infinitamente maior a tudo que conspirava contra. Sem avisar a família que iria sozinha, saí de casa ainda não acreditando na decisão que tomara. Detalhe um: o jogo era naquele estádio ali da beira do lago. O deslocamento até o aterro foi um misto de alegria e apreensão. Minha barriga doía e o coração, por vezes, quase saltou pela boca. No centro, um princípio de tumulto quase me fez desistir do sonho. Resisti bravamente. Já agia mais com o coração que com a razão. A paixão pelo tricolor era minha maior motivação. Totalmente sem identificação, ainda assim, durante todo o trajeto, fui alvo de piadinhas. Será que minha cara estampava algo além que pavor? Chegando ao local do jogo e passado aquele medo inicial, percebi a ficha caindo lentamente. Nada mais me faria voltar atrás. Não fosse um pequeno mas importantíssimo detalhe: o ingresso. Faltando em torno de duas horas para o início do jogo, ingresso para gremista era artigo de luxo e só na mão de cambistas a valores exorbitantes. Relutei. Quando finalmente decido que o investimento era necessário, nem cambista mais tinha a entrada. Entrei em desespero. Não acreditava que ficaria de fora. 

Resolvi dar uma volta e ver se encontrava um conhecido. Na verdade um salvador. Caminhando em meio à torcida adversária, no pátio do estádio, encontro o professor Otávio Rojas, à época dirigente responsável por uma das ações do marketing colorado. Logo que me avistou, perguntou o que fazia ali, em campo inimigo. Sorrindo, falei que aguardava por um milagre para assistir ao clássico uma vez que não havia mais ingressos. Comovido com minha história, ele tira uma entrada do bolso e me entegra, ressaltando que toda vez que colocara um gremista pro interior do estádio, sorte pro colorado. Sem pestanejar, rebati dizendo que era tri pé-quente. Aceitei o regalo, engoli seco e entrei. Vale destacar que o ingresso dava acesso às sociais da torcida adversária. Mas àquela altura do campeonato, como diz o ditado, já que está no inferno (literalmente), te abraça no diabo. Naquele momento já não tinha dúvidas que seria um Grenal inesquecível. Lá dentro,mais um susto. Dou de cara com aquele aglomerado vermelho por todos os lados.Imediatamente, na diagonal, avisto um mar azul cantando sem parar. Me deu uma vontade enorme de estar lá, de pular a extinta coreia e correr pra massa tricolor. Mas só tive a plena noção do que estava fazendo quando um amigo de imprensa, das cabines, me vendo na social do aterro, colocou as duas mãos na cabeça e gritou: “tu tá louca!”. Ali contive um pouco meu ímpeto desbravador e procurei um lugar pra me acomodar, sem ser descoberta. Mas não conseguia tirar os olhos da torcida gremista que fazia a festa do outro lado. Recuperada de toda maratona e ainda estasiada com o que acontecia, me sentia a pessoa mais feliz do mundo. Ali percebi que meu amor pelo Grêmio não tinha limites. Bola rolando,o jogo começa e o nervosismo também. Precisava manter-me no anonimato ao mesmo tempo que me angustiava cada ataque perdido pelo tricolor. Minha reação a cada jogada era inexistente. Olhava novamente a torcida gremista e, em silêncio, cantava junto. Minha segurança, naquele instante, também estava em jogo. Fim do primeiro tempo, placar zerado. Durante o intervalo, a torcidinha já começava a demonstrar algum descontentamento com seu time. Muitos colorados indignados e eu ali, tirando aquela onda, ocultamente, da cara de cada um.  Segundo tempo e o empate persistia, assim como a impaciência das queridas.  Quando o jogo se encaminhava praquele ocho, resultado feio e sem emoção, aos 38 minutos, num cruzamento do ala esquerdo Gilberto, Rodrigo Mendes pula mais alto que o zagueiro colorado e, de cabeça, balança a rede do adversário. Pensei que fosse morrer. Não sabia o que fazer. Fico até hoje imaginando minha cara na hora do gol. A apatia da torcida vermelha aliada a vibração dos torcedores gremistas fizeram com que as lágrimas, por mais contidas que tivessem, viessem à tona por alguns instantes. Foi um momento inigualável. Vibrei,silenciosamente,como nunca. Sentia um orgulho tão grande que nem a impossibilidade da comemoração fez diminuto aquele momento sublime. A melhor torcida do mundo fazia a festa por mim. Enquanto os colorados quebravam todos os assentos da social, irados com o timeco dentro de campo, eu era pura alegria com a vitória do meu tricolor. Fiquei um pouco assustada, mas nada foi capaz de abalar minha felicidade. Muitos grenais vieram depois daquele e, sempre que retorno ao beira-lago para um clássico – agora do lado devido – recordo com muito carinho daquela tarde de sábado. Ah, eu falei pro professor que era tri pé-quente! E ai tricolor, qual foi o teu Grenal inesquecível?

Um comentário para “Meu Grenal inesquecível”

  1. Nelson Luiz Ramão

    07. fev, 2009

    O curioso é que o meu Grenal inesquecível eu não assisti. Ouvi pelo rádio, eu acho, mas não entendi nada… Aliás, eu não entendia nada… Sei que ele existiu e que fiz parte dele porque minha mãe me contou. Foi nos Eucalíptos (antigo estádio colorado), em 17 de agosto de 1959. Vitória gremista por 2 a 1 na casa do adversário com dois gols do inesquecível Juarez para o tricolor e Grêmio Campeão Metropolitano. Eu tinha 6 meses de vida e morava em Mata, na época uma vila à margem da ferrovia entre São Pedro do Sul e São Vicente, no interior do interior do pampa. Meu pai enfrentou doze horas de trem até a capital para ver seu time vencer o Grenal (e claro, mais doze para voltar para casa, depois do jogo…). Foi nessa ocasião que vesti, pela primeira vez, a camisa do Grêmio e é um fato que, embora não me lembre como ocorreu, lembro da minha mãe contando da alegria do meu pai ao me ver no colo dela, na gare da pequena estação, para recebê-lo em seu retorno e eu fardado de tricolor… De prova, sobrou apenas uma pequena foto em preto e branco, tirada alguns meses depois, em frente a casa onde morávamos… Pois a pequena camiseta ainda servia em mim… Quando ouvi essa história contada pela minha mãe, entendi que este fora o Grenal inesquecível para mim. O Grenal em que me tornei gremista aos seis meses de vida…
    Saudações tricolores

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