Hermanos Tricolores
Publicado em 22/set/2007 por Leonardo Fleck.
Tags: almagro, buenos aires, hermanos, hinchas
por Daniel Galera.
Éramos sete: eu, Leonardo e Cléber na facção dos brasileiros; Juanjo, Diego “Lion”, Miguel e Pablo representando os porteños. Nosso destino: o estádio Tres de Febrero, no bairro Jose Ingeniero, na província, a 40 minutos de ônibus do bairro Almagro. Fomos assistir à partida Almagro vs Defensa e Justicia, no dia 10 de maio.
Quando cheguei em Buenos Aires, descobri que o Grêmio tinha um time “irmão” por aqui. Não entendi muito bem o que isso significava, mas quando o Leonardo me mandou uma foto de uma pichação onde os escudos de Grêmio e Almagro apareciam juntos, percebi que a coisa era séria. A camiseta tricolor dos dois times é praticamente idêntica. Por isso, aceitei na hora a proposta de irmos ao estádio ver o Almagro jogar, tendo como guia o bem-humorado Juanjo, um sujeito alegre de quarenta anos e espírito de vinte que assim que me viu me entregou um punhado de adesivos tricolores onde se lê: “GREMIO-ALMAGRO / Hermanos Tricolores / Una Pasion Sin Fronteras”.

Depois de ficarmos umas duas horas bebendo Isenbeck litrão e comendo panchos num boteco da Av. Córdoba, pegamos o 146 e viajamos 40 minutos até a província, bebendo Coca-Cola com Fernet misturados em garrafas pet. O Tres de Febrero fica muito longe da sede do clube (que fica no próprio bairro central de Almagro) porque quando eles foram construir seu estádio não havia mais espaço nenhum à disposição na cidade.
Num frio de rachar, em meio a uma paisagem urbana que poderia ser Canoas, descemos numa praça meio abandonada onde há uma estátua de uma vênus pintada de tricolor (toda semana a prefeitura limpa e toda semana eles pintam de novo, há anos, e será assim até o fim dos tempos). O estádio é pequeno, a lotação não chega a 20 mil, e nessa noite ele estava bem vazio, talvez porque mesmo com uma vitória a chance do time no campeonato da segunda divisão argentina era quase nula.

Chegamos 15 minutos atrasados. As torcidas se concentravam atrás das goleiras, com as arquibancadas laterais quase desocupadas. O Defensa e Justicia tem uniforme verde e amarelo. Sentado no muro da arquibancada do Almagro, um torcedor vestia nos ombros uma bandeira do adversário enquanto sacudia outra bandeira do próprio time, provavelmente ostentando o troféu de alguma briga ocorrida antes da partida.
No instante em que saquei minha câmera, fui alertado pelo Diego para guardá-la o quanto antes. Parte da torcida é barra-pesada e eu poderia perder a câmera de maneira desagradável. O jogo foi horrível e o Almagro, que segundo os torcedores tinha jogado bem e vencido as últimas quatro partidas, perdeu de 1 a 0 numa partida pegada e violenta em que um dos atacantes do D&J usava um capacete de rugby. Não tinha bebida pra vender no estádio – a selvageria costuma comer solta antes e depois do jogo, e vender álcool nas imediações seria incitar o genocídio. A torcida do Almagro cantou seus hinos durante quase toda a partida, não de forma ininterrupta, mas com uma freqüência que fazia uma média entre o mau desempenho do time e a necessidade de rebater os gritos da torcida adversária. Detalhe que eu não sabia: em vez de vaiar, o argentino assobia. Gritar “UUHH” aqui não faz sentido algum. No final, mesmo com a derrota, todos, sem exceção, aplaudiram o time.
É incrível como os torcedores do Almagro veneram o Grêmio e se consideram irmãos. Vários torcedores estavam com camisa do Grêmio (as camisas são de fato idênticas, com exceção da mais recente do Almagro, que mudou o azul celeste para um azul mais escuro e pôs números amarelos, o que meio que cagou tudo) e alguns me disseram possuir 4 ou 5 camisas do tricolor gaúcho em casa. Miguel, que estava conosco, usava uma camisa do Almagro e uma jaqueta do Grêmio. Eles sabem tudo sobre o Grêmio e há várias pichações nos arredores do estádio com os escudos dos dois times e frases como “paixão sem fronteiras”. Alguns dos torcedores com quem falei já foram a Porto Alegre assistir partidas do Grêmio. O desprezo pelo Inter e pelos bâmbis também é exatamente o mesmo. Alguns tinham a noção equivocada de que Grêmio e Palmeiras também eram times mais ou menos “irmãos”. Eu e o Leonardo tratamos de desfazer esse engano com veemência, evocando a rivalidade dos anos 90.
A saída do jogo foi tranqüila. Na chegada, nossos amigos argentinos queriam nos levar para ver uma das pichações que reúnem os dois times, mas como estávamos atrasados a idéia foi cancelada. Na saída, comecei a estranhar quando percebi que o caminho de volta até a parada de ôninus era diferente. Caminhamos umas 8 quadras por uma vizinhança cada vez mais deserta e ameaçadora. Quando estava prestes a perguntar qual era nosso destino, tudo ficou claro: tínhamos ido até um muro enorme em que os escudos do Almagro e do Grêmio se confundiam em meio a faixas de tinta tricolores e frases celebrando a identificação dos dois times. Estávamos a duas quadras do Forte Apache, a favela de onde saiu o Tevez e onde a polícia nunca entra. Era 1h da manhã. O fato de eu estar vivo comprova que o conceito de estatística é uma farsa.
Eu e o Leonardo precisávamos acordar cedo e queríamos ir embora, mas o entusiasmo e a hospitalidade dos porteños não permite negativas. Recusar uma cerveja pós-jogo é “mala onda”. Depois de atravessar a Ciudadela a pé e cruzar a Av. General Paz, entramos no bar Sammy, onde samambaias e néons multicoloridos se somavam a uma televisão que mostrava a partida entre Nacional e Necaxa pela Libertadores. As Heinekens litrão saíam tinindo da geladeira e eram despejadas em canecos que pareciam ter sido conservados a 1km de profundidade no gelo Antárctico. Entramos noite adentro, é claro.

A sensação final dessa experiência é de injustiça: por que os gremistas não conhecem o Almagro? Não sei bem a origem dessa identificação tão forte, mas sei que os torcedores deles torcem para o Grêmio com paixão legítima, como se os dois times fossem dois batalhões numa mesma frente – um menor e mais modesto (ainda assim, é o time de segunda divisão argentina que mais vezes subiu à primeira), o outro maior e mais famoso. É injusto que os gremistas não retribuam essa amizade. Na próxima vez em que você for a um jogo do Grêmio, olhe com cuidado ao redor. Pode ser que você encontre alguém com uma camisa do Almagro, quase idêntica à nossa. De minha parte, já comprei a jaqueta oficial de nossos irmãos porteños. Se eu encontrar um torcedor do Almagro no Brasil, quero que saiba que estive em seu estádio e torci pelo seu time.
Daniel Galera é escritor, tradutor e baita gremista.
Publicado originalmente no site www.insanus.org/impedimento em 12 de maio de 2007.







pao
24. set, 2007
Afude mesmo essa torcida do Almagro. É dificel um time argentino torcer para um ” brasileiro” desgarrado é claro.
Show de bola mesmo.
gabriel
19. out, 2007
mto legal,sei pouco sobre almagro,quando eu for denovo na argentina eu visito,deve te sido uma experiencia legal msm
viejazenha
01. nov, 2007
Demais! comprei varios souvenirs do almagro quando fui a BA.
eloy
02. nov, 2007
Soy hincha de almagro e gremista ate a medula.
Bruno
08. mai, 2008
pô legal muito interesante eu ja tinha ouvido do almagro, aquele la do japão, mas pela fedelidade desses querreiros do almagro virei fan deles tbm!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Carlos Júnior
20. mai, 2008
Todos os jogos do Imortal têm camisas do Almagro…
Abraço para os hermanos…
juanjo
29. mai, 2008
aguante gremio y almagro una verdadera pasion
jaca
17. set, 2008
sensacional, pena q deve ser mentira, no minimo estavam fazendo amizade para assaltar os brasileiros depois
seu nome/apelido
18. set, 2008
PARA NADA JACA, NO QUEREMOS ASALTAR A NADIE, PRUEBA DE ESO ES LA CANTIDAD ENORME DE GREMISTA QUE YA VISITARON NUESTRA CANCHA Y SIEMPRE FUERON BIEN RECIBIDOS, TANTO COMO CUANDO NOSTROS FUIMOS AL OLIMPICO.
ESTA PASION TRICOLOR ESTA MAS ALLA DE LOS PAISES Y FRONTERAS.
Leonardo Fleck
18. set, 2008
Jaca, nao é mentira nao, fui e comprovei, existe um sentimento de amizade sim e sem nenhum interesse sujo por trás. Os pibes do Almagro sao gente finíssima.
Juanjo, querido. Como le vá? Saludos tricolores, hermano.
raphael martins
24. nov, 2008
dalhe gremio prrrrrrrrrrraaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
leo
20. dez, 2008
o sinceramente muito forte esses texto mostra o que os torcedores deles sntem pelo nosso gremio daqui ,,,eu não conheco muito o almagro mais gosto muito do clube….tenho uma camiseta que guardarei rpo resto de minha vida.e daqui uns dois ano irei a argentina e conhecrei os grandes amigos de la…..gremio y almagro
douglas kaminnski
22. jan, 2009
eu conheci o Almagro essa semana e digo com toda convicção: os caras sao foda!! os grafites deles são muito bons…..
sergio aguero
11. jan, 2011
o gremio sempre foi argentino deveria ter alguma lei que fizesse do rio grande do sul território argentino o rio grande do sul tem que ser separado do brasil dale gremio y dale almagro hermanos para siempre.
Ivo
06. mai, 2011
Apenas esá enganado sobre Grêmio e palmeiras serem adversários ferrenhos.
As torcidas são amigas.
Mário
10. mai, 2011
Nas lojas de Bs As (centro) procurei e não encontrei a camisa do Almagro! As que haviam eram de qualidade muito baixa! Da próxima vez tentarei outra maneira de conseguir! Talvez na sede do próprio clube…
“Fuerte abrazo y suerte a la hinchada de Almagro”!!